Escore de cálcio zero significa risco zero de ter um infarto?
Essa é uma dúvida muito comum atualmente no consultório. O paciente faz o exame, recebe o resultado de escore de cálcio zero e fica aliviado. Muitas vezes chega à consulta perguntando: “Doutora, então quer dizer que eu não tenho placas nas artérias do coração e meu risco de infarto é zero?”
Não é bem assim. Escore de cálcio zero é uma ótima notícia e está associado a um risco cardiovascular menor nos próximos anos, mas não significa risco zero.
Antes de entender o motivo, vale explicar o que esse exame realmente avalia.
O que é o escore de cálcio?
O escore de cálcio é um exame realizado por meio de uma tomografia do coração, rápida e sem contraste, que identifica e quantifica a presença de cálcio nas artérias coronárias, responsáveis por levar sangue para o músculo cardíaco.
Quando encontramos cálcio nas coronárias, estamos diante de um marcador de aterosclerose. O resultado é expresso pelo chamado escore de Agatston e, de maneira geral, quanto maior a quantidade de cálcio encontrada, maior a carga de aterosclerose calcificada e maior o risco cardiovascular.
É um exame que utilizamos principalmente para ajudar a entender melhor o risco cardiovascular de determinados pacientes e, em algumas situações, orientar as estratégias de prevenção.
E quando o escore de cálcio é zero?
Quando o resultado é zero, significa que não foi identificada aterosclerose coronariana calcificada naquele exame.
Isso é uma informação muito favorável. Estudos que acompanharam esses pacientes ao longo dos anos mostram que pessoas com escore de cálcio zero apresentam, em média, uma taxa menor de eventos cardiovasculares. É o que chamamos na cardiologia de “Power of Zero”.
O ponto importante é entender a diferença entre risco menor e risco inexistente.
Posso ter placas nas coronárias mesmo com escore de cálcio zero?
Sim. O escore de cálcio identifica as placas que apresentam calcificação, mas existem também as chamadas placas não calcificadas, que podem não aparecer nesse exame.
Um estudo publicado em 2026 mostrou que cerca de 10% das pessoas com escore de cálcio zero apresentavam placas não calcificadas quando avaliadas pela angiotomografia das coronárias.
Isso não diminui a importância do escore de cálcio zero como um excelente marcador de prognóstico. Mostra apenas que o resultado precisa ser interpretado corretamente: não encontrar cálcio é diferente de afirmar que não existe nenhuma placa nas coronárias.
Meu escore de cálcio deu zero. Posso parar a estatina?
Essa é outra pergunta muito frequente no consultório e merece atenção.
O escore de cálcio pode ajudar na avaliação do risco e até participar da decisão sobre o tratamento em pacientes selecionados. Mas um resultado zero não significa que você possa suspender uma medicação que já tem indicação.
Isso é especialmente importante em algumas situações, como LDL ≥190 mg/dL ou hipercolesterolemia familiar, além de pacientes com diabetes, tabagismo atual ou forte história familiar de doença cardiovascular precoce.
Portanto, se você já faz tratamento para reduzir o colesterol, não suspenda a medicação simplesmente porque o escore de cálcio veio zero. O resultado precisa ser analisado junto com o restante da sua avaliação cardiovascular.
E a lipoproteína(a)?
Outro ponto que considero importante na avaliação do risco cardiovascular é a lipoproteína(a), também conhecida como Lp(a).
A Lp(a) é uma partícula determinada principalmente pela genética e, quando está elevada, está associada a maior risco de aterosclerose, infarto e outras doenças cardiovasculares. Por esse motivo, as diretrizes atuais recomendam sua dosagem pelo menos uma vez na vida em adultos.
Esse é mais um exemplo de por que não podemos definir o risco de uma pessoa olhando apenas para um único exame. Duas pessoas podem ter escore de cálcio zero e, ainda assim, apresentar perfis de risco diferentes dependendo do LDL, da Lp(a), da presença de diabetes, do tabagismo, da história familiar e de outros fatores.
Quem deve fazer o escore de cálcio?
Apesar de ser um exame muito útil, o escore de cálcio não precisa ser feito por todo mundo.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 destaca seu papel principalmente quando precisamos refinar melhor o risco cardiovascular. Entre os pacientes que podem se beneficiar estão pessoas com mais de 40 anos, risco cardiovascular intermediário e LDL entre 70 e 159 mg/dL, quando o exame está disponível.
E não é apenas o resultado zero que traz informações importantes. Quando encontramos cálcio, a quantidade também ajuda a definir o risco. Pela diretriz brasileira, CAC acima de 100 ou acima do percentil 75 reclassifica o paciente para alto risco cardiovascular, enquanto CAC acima de 300 caracteriza muito alto risco.
Por isso, não basta olhar para o laudo e pensar apenas em “zero ou não zero”. O número precisa ser interpretado dentro do contexto clínico de cada pessoa.
Afinal, escore de cálcio zero é uma boa notícia?
Sim, e uma ótima notícia. Um escore de cálcio zero está associado a um risco cardiovascular menor nos próximos anos e é uma informação prognóstica muito favorável.
Mas não significa risco zero de infarto, não exclui completamente a presença de placas nas coronárias e não significa que você possa suspender um tratamento que já tem indicação.
Na prática, o risco cardiovascular é resultado de um conjunto de informações. Colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo, história familiar, Lp(a), idade e presença ou não de aterosclerose ajudam a montar esse cenário.
Você já fez escore de cálcio? Sabe quanto está o seu LDL? Já dosou a sua lipoproteína(a)?
Essas informações, quando avaliadas em conjunto com a história clínica, permitem uma avaliação muito mais detalhada do seu risco cardiovascular e ajudam a definir qual a melhor estratégia de prevenção.
Referências
Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. 2025.
2026 ACC/AHA Guideline for the Management of Dyslipidemia.
Alsubai S, Alqahtani F, Sgreva S, et al. Predictors and characterization of non-calcified plaques among patients with a zero coronary calcium score. Journal of Cardiovascular Computed Tomography. 2026. doi:10.1016/j.jcct.2026.07.013.

